quarta-feira, julho 04, 2007

Ficando Velhinha

A última da pequena Salviana Greca:

Quinta-feira, 28/06/2007

Rotina diária, vai na cozinha pegar suco pra Talita, no caminho de volta põe a comida do peixe. Toma banho correndo com Talita no banheiro perguntando mils "porquês" (ohh fase, putê mãe ???).

Veste a roupa correndo com a Talita atrás,
- Mãe me arruma, eu primeiro,
- Não hj mamãe primeiro porque tá frio e eu acabei de sair do banho.

Arruma a Talita correndo atrás dela pela casa:
- Talita escova o dente;
- Talita pro banheiro lavar o rosto;
- Talita quieta pra pentear o cabelo;
- Eu sei, doeu, puxou o cabelo mas é vc que não fica quieta!!!

Corre pra cozinha, coloca as coleiras nos cachorros.
- Talita vamos passear com os cachorros!!
- Não Talita, não dá pra você sair com a moto, o bebê grande, o Shrek, a Fiona, a tartaruga e a bolsa!! Escolhe SÓ UM BRINQUEDO!!!!

Passeia, volta, dá comida pros cachorros, pega alguma coisa pra Talita ir comendo no caminho.
- Mãe ? Hoje é dia de brinquedo.
- Sim, finalmente hoje é o dia do brinquedo.
- Vou levar o Shreck, a Fiona, o Bebê Pequeno, o carrinho...
- NÃO!!!!! Um brinquedo só, e não adianta fazer bico!!!

Desce correndo carregando bolsa, agenda, mochila e lanchinho. Abre o carro, joga a bolsa lá dentro, coloca Talita na cadeirinha, coloca o carrinho com o "bebê pequeno" dela do lado da cadeirinha pois hoje é "Dia de Brinquedo".

Entra no carro, suspira e pensa "o dia começa agora e eu já estou exausta!!!"

Liga o carro, engata a ré e sai da vaga.

- MÃEEEEEEEEEEEEEEE!!! E o meu cinto ?!?!?!?!?!? Você também não pôs o seu !!!!

Encosta o carro, fecha o cinto de Talita, põe o meu cinto, sai com o carro.
- Parabéns Talita, muito obrigada por ter avisado a mamãe do seu cinto. Você é uma menina muito esperta.
- E vc mãe?
- A mamãe anda meio lerdinha ...
- Vou comprar outra mãe, essa tá ficando velhinha ..........
- AH ??? COMO ASSIM ??? COMO ASSIM ?!?!?! Você não quer mais a mamãe?!?!?!
- Quero, eu vou comprar outra. Você tá ficando velhinha.
- E o que você vai fazer com a mamãe ???
- Vou te matar
- ah ??? como assim ?? COMO ASSIM ???
- Vou com a minha vovó Mercia comprar uma mamãe nova com uma cara nova !!!!

@-(
.........
Como vai ser quando ela tiver 15 anos ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!??!!??!

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O Tio Juca

Uma das coisas bonitas nas lembranças é que elas são completamente inmensuráveis! Muitas vezes tenho a impressão de que tenho poucas lembranças dos vôs, vós e tios, de que aproveitei pouco o tempo que tive com os que já se foram. Talvez por isso esse blog, tentar resgatar e mesmo preservar as lembranças e até mesmo ganhar novas com as histórias de cada um.

Por outro lado, e este é o melhor de lembrar, as vezes pequenas lembranças, fatos simples, revestem-se de um tamanho enorme no coração da gente. O meu Tio Juca por exemplo, o Tio Juca foi um cara que eu queria ter conhecido mais, conversado mais, ouvido mais, mas, coisas de quem acha que sabe tudo, aproveitei menos do que poderia.

O Tio Juca que eu tenho na memória é um cara com um sorriso enorme, um bigode quase do mesmo tamanho do sorriso, um cabelo assim meio Pedro Cardoso, sentado na mesa da cozinha da casa da Vó Onésia, ele e o Vô Giovanni, os dois sem camisa, e o tio com um chaverinho da madeireira dele que era um mini-canivete. E eu muleque, doze anos talvez, adorei aquele canivetinho, gostei tanto que pedi para mim e levei bronca na hora da D. Arlene para não ser pidão. Pois o Tio Juca falou: "Deixa sô, é claro que eu dou, inda mais pro Giovanni que nunca me pede nada. Como todo carinho!" Cara legal meu tio!

O chaveiro canivetinho eu não sei que fim levou, ou melhor sei bem onde está, o objeto não resistiu muito as investidas do Giovanni muleque tentando cortar lascas das portas e galhos das árvores e sumiu no mundo, já o presente, esse guardo comigo e é a maior pequena lembrança que tenho desse cara supimpa do sorriso grande, Meu Tio Juca.

Beijo Tio!

terça-feira, novembro 28, 2006

AS TIAS

Essa semana voltavamos de carro, ou íamos, nao lembro bem e eu e Ariela comentávamos sobre pessoas que dormem em situações, locais inadequados. O Marquinhos, meu filhote do meio, saiu com um TIA ANETE de todo tamanho.

É verdade! Na casa de vó, tinham 02 tias que fizeram parte da nossa história.

Tia Aneci que era a verdadeira dona de/a casa, a brava! Muito carinhosa mas gostava de tudo extremamente organizado. Cuidava para que nada faltasse a ninguém. Mais tarde encontrou o Tio Delcio e foi cuidar de si mesma. E fez falta a muita gente...

e

Tia Anete! Essa nunca cuidou de si. Vivia no mundo da lua. Juntava a sobrinhada toda levava pra Lojas Americanas no Centro e fazia festa. Lembro da gente no ônibus com aquele monte de brinquedo, entupidos de balas e chocolates. Felizes como crianças, e ela era uma delas. Tia bagunçada do jeitinho que criança adora...sem juízo.

Boas lembranças! Uma hora eu conto como foi a aventura vivida com ela aqui em Brasilia...o Junior era bebê de fraldas...e nao sobrou uma única...rsrsrsrs

segunda-feira, novembro 20, 2006

Só ela mesmo

Gostei muito dos posts da Lalinha aí embaixo. Isso é que é legal nesse blog, cada um vai ter uma perspectiva um pouco diferente. E cada um, ao falar do outro, fala também de si mesmo. Esse post me lembrou outra pequena estória, que só conheci poucos anos antes de vó morrer. Me disseram que ela ficava horas na varanda olhando para a BR para ver passarem os fuscas vermelhos (mais precisamente, grenás) porque era o carro do meu pai, e podia ser que ele estivesse chegando. Só ela mesmo ...

sexta-feira, novembro 17, 2006

MINHA VELHINHA - PARTE 2

Vó Lalinha foi e é pra mim a melhor tradução do AMOR, o significado da mansidão, o símbolo maior de ternura. Foi minha avó, minha mãe, minha amiga. Me ensinou crochê, um pouco de costura, me mostrou que silenciar é muitas vezes o grande segredo da paz. Ali naqueles muitos meses que passamos juntas eu a vi sorrir, raras vezes gargalhar, ralhar mansinho, chorar baixinho e muitas vezes por dentro. Resignação. Saudade. Paciência.

Foram diversas lições de vida. Segredos nossos cochichados ao cair da tarde na varanda. Sem diferença de tempo, sem distância. Corações que andavam juntos.

Paro de escrever e me volta o embargo na garganta quando todo ano nos despedíamos no portão. Beijos, abraços que com o tempo foram ficando carregados com a sensação da última vez. Era sempre a última vez. Mas no ano seguinte eu voltava e ela estava lá. Sentadinha na sua cadeira de palha a me olhar com a mesma ternura com que ela olhou para aquela bebê rechonchuda que recebeu de presente o seu nome.

Termino em lágrimas incontidas, lembrando das muitas cartas dela (e as da Patricia também) que ainda tenho guardadas. Vou ver se coloco alguma aqui.

É...Vó! Te amo! E agradeço sempre ter aproveitado todas as oportunidades para lhe dizer isso, em palavras e atos! Vou pra casa abraçar meus filhos!

Lalinha (com um orgulho danado desse nome)

MINHA VELHINHA - PARTE 1

A minha velhinha. A mais doce das criaturas que eu já conheci. Comecei este post na perspectiva de descrevê-la, mas todas as vezes que tento começar a escrever sobre ela as lágrimas me embaçam os olhos. Aquela que nunca aceitou que eu cresci, pra quem toda a vida eu fui sua menina, que já no hospital nos seus últimos dias de vida me pediu pra deitar no seu colo e me embalou como a um bebê.

A mulher que na sua sabedoria quase infantil olhou pra mim - quando recém-separada com o Rodrigo (o meu filho que ela jurava ser da minha mãe!) no colo eu fui me refugiar no seu aconchego, proibida de contar a ela o que se passava – e sentada no portão na sua cadeira de palha, a olhar a avenida Antonio Carlos me disse: “Não te preocupa minha filha, voce ainda vai encontrar seu príncipe encantado!”.

CORREA VASQUEZ 168

Eu passava todas as minhas férias no nº 168 da Correa Vasquez. Era a netinha da vovó. Lembro com saudade quando a casa ainda era inteira e tínhamos o pomar e o jardim. As goiabas com que a tia Aneci fazia doce ficavam na frente da casa. As roseiras da vó também.

No jardim que tinha uma portinha lateral ficava o carramanchão, mais e mais roseiras e a parreira, onde todo ano tinha O mais lindo cacho de uva amarrado no saquinho e guardado pra mim. Eu ia lá quase todo dia aguar as plantas com a vó. Lá nos fundos tinha a amoreira, a figueira (essa ficava no galinheiro que eu tanto temia, e tinha figos deliciosamente doces), goiabeira...essas são as que eu me lembro bem.

A casa grande, uma sala enorme onde, enquanto tia Aneci tentava botar ordem, a gente corria a procurar a dentadura da tia Anete, ou óculos, ou qualquer outra coisa que ela tivesse perdido.

Os quartos se transformavam numa bagunça infinita, cheios de malas (e como a gente tinha mala!). Eu escapava um pouco da bagunça porque meu lugar era garantido no quarto da Vó. Aquele onde lá no fundo do guarda-roupa ela mantinha o paletó do Vô Dedé sempre com o bolso cheio de balas.


terça-feira, novembro 14, 2006

E por falar em galinheiro...

Eu não me lembro direito do galinheiro lá da casa da vó...

Na verdade eu tinha um certo medo do quintal, raramente ia até lá.

Gostava mesmo era de brincar no jardim que se abria atras do portão de metal azul numa calçada curva que subia até a varandinha que ficava em cima da oficina e em frente à porta da casa.

Mas vim falar do galinheiro que ficava lá atrás da casa no qual Giovanni e Junior uma vez acorrentaram Lalinha (a neta não a avó, claro). Que foi achada lá sabe-se lá por quem, sabe-se lá quanto tempo depois, gritando baixinho morrendo de medo das galinhas...

Mas é claro que nenhum dos dois "santos meninos" lembra disso. Por sinal acho que nem Lalinha lembra, mas minha mãe nunca esqueceu essa história !!! :)

sexta-feira, novembro 10, 2006

Quando a gente era feliz

Essa é para você, Minduim, você precisa saber que há uma teia que o liga a outras histórias, outros lugares, acaso mais exóticos que Kununurra e meio que perdidos no milênio passado, há Correia Vasquez, e há Rua Itajubá, e Sítio, Serra, Rua da Areia, Contador, Riacho do Pau.
Escrevo pensando também em sua avó, para quem pouco haveria de mais importante que manter viva essa história, que é a nossa, e de seus (nossos) heróis. Depois de passar tardes e noites ouvindo os relatos dela, quem diria que já chegou a minha vez de juntar à fábula dos antepassados algo de novo? Não quero tirar um retrato do ocorrido (para isso há os retratos propriamente ditos), mas recontá-lo do meu jeito, e não todo o passado, que não cabe em lugar nenhum, mas um pequeno fragmento.
Saiba você, Minduim, que corria o ano da graça de 1972, na formosa cidade de Belo Horizonte, na formosíssima Rua Correia Vasquez, lamentavelmente me esqueci do número, talvez nem tivesse, ou pelo menos eu não precisava dele, porque me levavam e me traziam de volta, conforme. Morava ali D. Lalinha, ou melhor dizendo, Vó Lalinha. Era mansa a começar do nome, com dois eles e no diminutivo, fácil de falar. Aliás, para os netos o nome era ainda mais fácil, era só “vó”. E era mansa como um coelho branco, a voz de algodão, os cabelos de nuvem, nunca jamais gritando com um neto, nem quando a gente se pendurava do lado de fora da grade da varanda, passatempo dos mais agradáveis, recomendo muito.
Pois nesse longínquo ano de 72, como sempre (ou seja, desde 1970, mais ou menos), esperei impaciente pelo natal, que era quando praticamente nos mudávamos para a casa de vó, eu e a salvianada vinda dos quatro cantos da terra. Naquelas semanas, morávamos no imponente castelo de três quartos, cercado por lindos campos de terra batida e, quando chovia, campos de lama. E chovia bastante no natal, o que tornava ainda mais verdes as plantações próximas, um consórcio de mamona e capim elefante. O solar situava-se sobre uma colina, dominando outras colinas mais baixas, além do viaduto, dos quais se separava por inexpugnáveis barrancos. Da nobre residência se avistava ao longe alta serra, a qual, quando você puder ler este relato, já estará devidamente transformada em pó de ferro, embalada e exportada para a China. E falando de metais, havia também nas imediações um aprazível cemitério de automóveis, cenário de memoráveis guerras de mamona. Bem mais longe, uma taberna oferecia bebidas de grande tradição e maior demanda: Mate Couro, Mirinda, Mineirinho, Crush, Grapette e, só para os habitués, Fanta-Guaraná.
Dentro do castelo, o movimento era sempre frenético (ia dizer lunático, mas sabemos que a família inteira é dotada de perfeita saúde mental). Pelo menos três tios disputavam o direito de gritar mais alto, por algum assunto de extrema relevância na hora e nenhuma depois disso, e primos e primas corriam desembestados pela sala, passando pela varanda, descendo pelo muro que dava para o corredor lateral e dando a volta pela cozinha para repetir o circuito, em movimento perpétuo, ou até alguém bater a testa na quina da mesa da sala de jantar (a culpa é do Giovanni!), o que forçava uma interrupção momentânea da atividade, retomada logo depois do temido Merthiolate (Minduim, pergunte a sua mãe o que é isso). Num sofá que os neurônios restantes me garantem que era azul claro, derrubado pelo lauto almoço e por um garrafão de Sangue de Boi (pergunte a sua mãe o que é isso, e a dor de cabeça que dá), Tio Clóvis desfilava sua risada eterna, ouvindo os causos do meu pai, que se repetiam, mas nunca, nunca da mesma maneira. Em frente, a vitrola com troca automática de discos (pergunte a sua mãe etc.) e um retrato de Cristo com o coração apertado pela coroa de espinhos, emocionantemente horroroso, mas vó gostava. Voltando ao sofá azul, às vezes ele virava submarino, às vezes barraca, às vezes Veraneio, que era um SUV sonho de consumo da classe média (taí, nem tudo muda tanto assim). Na cozinha, tinha a Judite, de quem me lembro pouco (ô Casa Grande & Senzala), mas me lembro da sopa, que tinha beterraba, muito cozida. Tinha também uma quantidade industrial de comida de natal, mas disso não dou fé porque naquela época nada podia me interessar menos, e não à toa pesava um quinto do que peso hoje.
Como prometi, mostro só um pedacinho da estória. Ficam outras coisas para depois, e para outros blogueiros, mas ainda dá tempo de fazer um travelling pela memória: os papéis de presente espalhados na sala no dia 25, a voz de trovão do Ona, o pássaro preto mal adestrado que roubava os grampos da Tia Anecy, o Tumba, um pastor-vira-latas de alta estirpe, o sorriso da Lalinha (com a Lalinha atrás), os filmes de Bíblia que passavam na TV (de baixíssima definição e em preto-e-branco), o Luiz Augusto, que ainda não era ronin, mas já destilava segredos, o fusca quatro-portas do Clodion, as enormes sandálias havaianas do Nildo (42, a minha era 30, se tanto), a amoreira no quintal, as cadeiras de couro trabalhado na sala de jantar, feitas pelo Ona, as tortas com cheiro de cominho da Tia Aldecy (alguns gozavam da dignidade de ser chamados de tios, outros não, ou nem sempre), as músicas de natal vindo dos compactos de vinil verde, os retratos de formatura do Miro e do Clodion, o retrato da família inteira, tirado no retratista, o quadro com fotos de todos os netos, a caixa d’água-piscina do terreno do Nildo, as agulhas de tricô de vó, tudo o que não volta mais, como o natal dos meus oito anos, quando a gente era feliz, e sabia, Minduim.