Essa é para você, Minduim, você precisa saber que há uma teia que o liga a outras histórias, outros lugares, acaso mais exóticos que Kununurra e meio que perdidos no milênio passado, há Correia Vasquez, e há Rua Itajubá, e Sítio, Serra, Rua da Areia, Contador, Riacho do Pau.
Escrevo pensando também em sua avó, para quem pouco haveria de mais importante que manter viva essa história, que é a nossa, e de seus (nossos) heróis. Depois de passar tardes e noites ouvindo os relatos dela, quem diria que já chegou a minha vez de juntar à fábula dos antepassados algo de novo? Não quero tirar um retrato do ocorrido (para isso há os retratos propriamente ditos), mas recontá-lo do meu jeito, e não todo o passado, que não cabe em lugar nenhum, mas um pequeno fragmento.
Saiba você, Minduim, que corria o ano da graça de 1972, na formosa cidade de Belo Horizonte, na formosíssima Rua Correia Vasquez, lamentavelmente me esqueci do número, talvez nem tivesse, ou pelo menos eu não precisava dele, porque me levavam e me traziam de volta, conforme. Morava ali D. Lalinha, ou melhor dizendo, Vó Lalinha. Era mansa a começar do nome, com dois eles e no diminutivo, fácil de falar. Aliás, para os netos o nome era ainda mais fácil, era só “vó”. E era mansa como um coelho branco, a voz de algodão, os cabelos de nuvem, nunca jamais gritando com um neto, nem quando a gente se pendurava do lado de fora da grade da varanda, passatempo dos mais agradáveis, recomendo muito.
Pois nesse longínquo ano de 72, como sempre (ou seja, desde 1970, mais ou menos), esperei impaciente pelo natal, que era quando praticamente nos mudávamos para a casa de vó, eu e a salvianada vinda dos quatro cantos da terra. Naquelas semanas, morávamos no imponente castelo de três quartos, cercado por lindos campos de terra batida e, quando chovia, campos de lama. E chovia bastante no natal, o que tornava ainda mais verdes as plantações próximas, um consórcio de mamona e capim elefante. O solar situava-se sobre uma colina, dominando outras colinas mais baixas, além do viaduto, dos quais se separava por inexpugnáveis barrancos. Da nobre residência se avistava ao longe alta serra, a qual, quando você puder ler este relato, já estará devidamente transformada em pó de ferro, embalada e exportada para a China. E falando de metais, havia também nas imediações um aprazível cemitério de automóveis, cenário de memoráveis guerras de mamona. Bem mais longe, uma taberna oferecia bebidas de grande tradição e maior demanda: Mate Couro, Mirinda, Mineirinho, Crush, Grapette e, só para os habitués, Fanta-Guaraná.
Dentro do castelo, o movimento era sempre frenético (ia dizer lunático, mas sabemos que a família inteira é dotada de perfeita saúde mental). Pelo menos três tios disputavam o direito de gritar mais alto, por algum assunto de extrema relevância na hora e nenhuma depois disso, e primos e primas corriam desembestados pela sala, passando pela varanda, descendo pelo muro que dava para o corredor lateral e dando a volta pela cozinha para repetir o circuito, em movimento perpétuo, ou até alguém bater a testa na quina da mesa da sala de jantar (a culpa é do Giovanni!), o que forçava uma interrupção momentânea da atividade, retomada logo depois do temido Merthiolate (Minduim, pergunte a sua mãe o que é isso). Num sofá que os neurônios restantes me garantem que era azul claro, derrubado pelo lauto almoço e por um garrafão de Sangue de Boi (pergunte a sua mãe o que é isso, e a dor de cabeça que dá), Tio Clóvis desfilava sua risada eterna, ouvindo os causos do meu pai, que se repetiam, mas nunca, nunca da mesma maneira. Em frente, a vitrola com troca automática de discos (pergunte a sua mãe etc.) e um retrato de Cristo com o coração apertado pela coroa de espinhos, emocionantemente horroroso, mas vó gostava. Voltando ao sofá azul, às vezes ele virava submarino, às vezes barraca, às vezes Veraneio, que era um SUV sonho de consumo da classe média (taí, nem tudo muda tanto assim). Na cozinha, tinha a Judite, de quem me lembro pouco (ô Casa Grande & Senzala), mas me lembro da sopa, que tinha beterraba, muito cozida. Tinha também uma quantidade industrial de comida de natal, mas disso não dou fé porque naquela época nada podia me interessar menos, e não à toa pesava um quinto do que peso hoje.
Como prometi, mostro só um pedacinho da estória. Ficam outras coisas para depois, e para outros blogueiros, mas ainda dá tempo de fazer um travelling pela memória: os papéis de presente espalhados na sala no dia 25, a voz de trovão do Ona, o pássaro preto mal adestrado que roubava os grampos da Tia Anecy, o Tumba, um pastor-vira-latas de alta estirpe, o sorriso da Lalinha (com a Lalinha atrás), os filmes de Bíblia que passavam na TV (de baixíssima definição e em preto-e-branco), o Luiz Augusto, que ainda não era ronin, mas já destilava segredos, o fusca quatro-portas do Clodion, as enormes sandálias havaianas do Nildo (42, a minha era 30, se tanto), a amoreira no quintal, as cadeiras de couro trabalhado na sala de jantar, feitas pelo Ona, as tortas com cheiro de cominho da Tia Aldecy (alguns gozavam da dignidade de ser chamados de tios, outros não, ou nem sempre), as músicas de natal vindo dos compactos de vinil verde, os retratos de formatura do Miro e do Clodion, o retrato da família inteira, tirado no retratista, o quadro com fotos de todos os netos, a caixa d’água-piscina do terreno do Nildo, as agulhas de tricô de vó, tudo o que não volta mais, como o natal dos meus oito anos, quando a gente era feliz, e sabia, Minduim.
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6 comentários:
Rapaz... arrepiei todo primo. Era tudo isso e muito mais mesmo. Investidas secretas a garagem depósito da casa onde códigos nunca usados e planos jamais iniciados eram urdidos entre poeira e teias de aranha. Escalar o telhado da área para chegar na caixa d'água e as vezes espiar as primas pelo basculhante do banheiro. O galinheiro no fundo do quintal que parecia uma floresta de mistérios... ô tempo baum!!!
É acho que seria melhor o Junior ter escrido bem depois... Foi de arrepiar mesmo... Não tenho a facilidade poética , mas prometo dar a minha contribuição . Não agora ,pois entrei aqui só para dar uma espiadinha... POr falar nisso..
Vaninho, que história é essa de espiadinha ???
Vocês se lembram dos retratos da Bernadete e se não me engano do Zé Flávio na parede ( os dois primeiros netos de vó Lalinha) ?
E o tumba??? Aproveitando a citação ao Luiz , agora "ronin" , lembram-se da foto dele como se fosse um cachorro , com a colera e o prato do Tumba? Vou tentar recuperar esta foto (e outras)lá na casa do papai..
:-) ... :').... o presente mais lindo que Minduim recebeu ... 2 minutos atras eu diria que tive uma semana de cao, agora eu so' me lembro do que importa. Uma chuva colorida de hormonios sorrisos cintilantes se filtra pela placenta ... :-) Obrigada, muito obrigada. Saudades beijos. Mama Fa.
Affff, que enchi os olhinhos d'água !!! Pergunta-se, quem vc chama de Minduim ?!?!! Porque é assim que Fabiola chama o filho/a que espera pra maio!!! :)
Eu não tenho lembranças tão nítidas dos natais lá na casa de Vó não mas me lembro bem dos papeis de presentes espalhados pelo chão... Engraçado, me lembro dos papeis e não dos presentes !!!
Pois é, entendi que a idéia é essa mesma: fazer um caleidoscópio com o que vimos e vivemos (mesmo que pelo basculante), que foi diferente para cada um, daí a riqueza dos vários relatos. E o Minduim é o da Fabíola, é claro (ou escuro, em maio saberemos).
eu diria poetico!!!
mas a vó fazia era crochê viu
e costurava como ninguem
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